VINHO DA "BOTA" É PARCEIRO IDEAL
São Paulo, sexta, 17 de abril de 1998

Você prefere Bordeaux ou Borgonha? Italianos ou franceses? Depende da hora, prato, etc., mas uma coisa é certa, os vinhos italianos estão entre os mais simpáticos com a comida e em alguns casos com o bolso.
Quem está começando a se interessar por bons vinhos agora pode se espantar pela indicação de um Valpolicella, talvez porque os que mais vendem por aqui sejam aquelas coisas ácidas e desagradáveis.
Este não é o caso do Ripassa do produtor Zenato, um Valpolicella Classico enobrecido por uma espécie de re-fermentação com o bagaço das uvas do Amarone, outra poesia de Verona.
As uvas Corvina, Rondinella e Molinara compõem este vinho robusto de peito estufado e com delicioso aroma de frutas secas, na boca lembrou inclusive banana passa de lojinha natural, seria um vinho "odara"? E mais, com umas fatias de salame chega ficar uma indecência e torna o dia-a-dia um "Wine-Experience"...
O Piemonte tem fama de careiro devido à grandiosidade dos Tartuffi Bianchi da vida e os grandes Barolos e Barbarescos, mas dá pra tirar uma ótima "casquinha" da riqueza piemontesa com este admirável Barbaresco Rabajá do produtor Bruno Rocca que pelo preço que está sendo vendido é uma boa compra.
Os Barbarescos são geralmente mais macios que os Barolos e este particularmente já está ótimo para tomar, com seus aromas de pimenta verde, trufas e sua boca potente com final de compota de figos, mas é claro que para os pacientes (que não é meu caso...) ele vai crescer mais ainda com a idade, o "moleque" é prodígio.
A uva Nebbiolo encontra no Piemonte sua expressão máxima nesses vinhos, muitos dizem que ela é a Pinot Noir da Itália por sua elegância e perfume e também por ser temperamental a outros regimes e climas. Agora quando se quer ou pode cometer uma inesquecível "extravaganza" em termos de Itália meu paladar grita por trufas brancas e Angelo Gaya!
Sim, o mago dos Barbarescos e que inclusive foi condecorado "The Man of the Year" de 98 por uma das mais respeitadas revistas de vinho, a inglesa "Decanter". Gaya é o responsável pela modernização dos vinhos da região e pelos polêmicos preços altos. Costa Russi é um dos três "crus" que ele produz com maestria.
A safra de 86 não é considerada excepcional no Piemonte, mas isso pouco quer dizer quando falamos de grandes produtores, é algo como uma esbarradinha no piano de Bill Evans. Tomado na gigantesca taça de Borgonha Grand Cru que o próprio Gaya sempre "posa todo prosa" com seu Barbaresco aparece cerejas em calda, violetas, anis, a nossa dama da noite e na boca um sofisticado retrogosto de ameixas. Degustei os dois Barbarescos, primeiro puros e depois com uma polenta branca com shitake e manteiga de trufas,ufa!!!