COMEMORANDO EM RIOJA
São Paulo, Sexta-feira, 19 de Março de 1999

Hoje esta coluna completa um ano e eu me lembro de que a "coluna piloto" era sobre os vinhos de Rioja, norte da Espanha. Eu mesmo não sei por que adiei tantas vezes escrever sobre esses vinhos de imensa personalidade e versatilidade. O nome do rio Oja (um dos afluentes do rio Ebro, que cruza a região) foi pego emprestado para a região que se divide em Rioja Alavesa, Alta e Baja.
As uvas autorizadas inicialmente para a denominação Rioja são: tempranillo, garnacha ou grenache, mazuela e graciano. Alguns produtores fazem uso da onipresente cabernet sauvignon para adicionar potência e cor.
Quando falei em versatilidade foi baseado na maneira "bi" que os Riojas se comportam à mesa - acompanham desde grelhados sangrentos até as perfumadas paelhas. Nunca vi um vinho dialogar tão perfeitamente com uma autêntica moqueca baiana como a versão mais frutada da região, os Crianza (um ano nos barris).
Um dos Riojas mais populares em todos os mercados do país é o Marqués de Riscal, que foi o primeiro vinho espanhol que tomei na vida. O Reserva (dois anos no barril) de 94 é um exemplar típico, com aromas de baunilha e frutas secas - na boca, uma ligeira acidez que vai falar bem com frutos do mar, apesar de ser um tinto.
A estrela desse produtor é o estupendo Baron de Chirel, cujo superconcentrado 94 explode com um cassis elegante e alcaçuz nos aromas devido à cabernet sauvignon.
Outro produtor que faz bom uso da cabernet é o Martinez Bujanda, que no Gran Reserva de 90 (50% cabernet, 50% tempranillo) traz um vinho raçudo, com aromas ligeiramente defumados das tais "frutas vermelhas".
Esse produtor também tem o seu "Super-Rioja", o Finca Valpiedra. O de 94, assim como o Baron de Chirel, mostra a maneira equilibrada e de bom gosto que os espanhóis encontraram para atingir o mercado do Novo Mundo com vinhos de sotaque moderno, mas com assinatura própria.
Os Riojas são conhecidos pela longevidade absurda. Degustei três "botellas" antigas. O Gran Reserva 890, produzido pela cooperativa La Rioja Alta, da safra de 78 é uma obra de arte! Esse vinho só foi engarrafado em 86, ficou oito anos descansando nas adegas do produtor. Aromas complexos de cedro, chocolate, baunilha e, na boca, maior do que Santo Amaro.
Três anos mais velho é o Viña Albina Gran Reserva (três anos ou mais na madeira) produzido pelas Bodegas Riojanas. Aqui nota-se claramente a ligação que é sempre feita do Rioja velho/maduro com os franceses da Borgonha na mesma situação. Esse 75 está extremamente delicado e pronto, com aromas doces de cereja, baunilha (olha ela de novo...) e aquela coloração "atijolada", que quando com ela me deparo sempre digo: "É disso que eu gosto!".
Uma galinha assada besuntada com mel foi para o altar da minha boca de braços dados, toda perfumada com esse Rioja feminino deliciosamente pronto para beber.
Após essa festa entrei numa máquina do tempo e tive a emoção de beber o vinho tinto seco mais velho que já bebi, o tesouro da Bodegas Marquês de Murrieta, o Castillo Y Gay Gran Reserva de 59! Para abrir a jóia a mão treme que é uma beleza, mas depois... Primeiro requisito de boa lógica: não comer absolutamente nada com esse vinho - pela raridade que ele representa e não por potência.
Aromas "arreganhados" de cravo, canela, melado e, na boca, dá vontade de chorar de tão complexo. Ele tem potencial de uma guarda de outros 6 ou 7 anos - e não pára por aí, deixei uma taça de degustação (Inao ou ISO) parada com o vinho por duas horas e, quando fui checar, estava melhor ainda! Falando em taças, os Riojas ficam melhores se degustados em taças de modelo para Bordeaux.