É MENTIRA O QUE DIZEM SOBRE PORTUGAL
São Paulo, sexta, 15 de maio de 1998

Pá! Ora pois! Convenhamos, os apreciadores de vinho cometem injustiças quanto aos vinhos lusitanos, e confesso que eu mesmo era daqueles que entoavam o jargão: vinho português não tem complexidade, aroma, só agora ficou bom com as técnicas modernas e tal...
Acabei de voltar de uma viagem de lançamento do meu disco no "país do pastel de nata", em que tive o prazer de degustar, quase diariamente, moscatéis de enlouquecer a dieta de qualquer ser humano.
Moscatel Roxo 20 anos, Bastardinho e, o melhor, um vinho de 1965 com retrogosto infinito das tradicionais passas secas, aparentes nesses vinhos, unidas a um potente aroma de canela que saiu de braço dado com o pastel de Belém. José Maria da Fonseca sabe das coisas.
Um fato maravilhoso é a relação custo-benefício, tanto nos vinhos quanto nos restaurantes. E mais: não é verdade que não haja serviço de vinho decente, com taças, "decanters" e pessoas gabaritadas para tal.
Dois exemplos que os amantes do vinho não podem perder em Lisboa: o Isaura (tels. 00-351-1-848-0838/6651), do escanção Costa, e A Canilha (tel. 00-351-1-386-4308), do entusiasta Carlos. Assistir ao Costa decantando vinhos é um show imperdível, que inclusive filmei.
O Isaura tem a melhor carta de Lisboa. Já A Canilha, fora servir o melhor cabrito assado que já comi na vida, possui uma "garrafeira" de antiguidades, como verticais de Mouchão, Quinta do Cotto Grande Escolha, Barca Velha, Tapada de Chaves e outros.
O famoso Gambrinus (tel. 00-351-1-342-1466) tem carta excepcional, como os vinhos mais velhos que bebi -um Madeira da Adega Estorrião, de 1856 e 1875, oriundo da casta Bual.
Tremi a cada gole dessas poesias líquidas de mais de cem anos, que mostraram vivacidade para viver alguns anos a mais.
Os aromas lembravam um casamento apaixonado de tâmaras com damascos secos. A boca? Depois do beijo da minha mulher, nunca tremi tanto!
Fato curioso é que, por Portugal não estar no tititi dos mais famosos franceses e italianos, você encontra por lá vinhos maduros, envelhecidos, raridades.
Sim, porque no meu caso aprecio degustar o vinho jovem, tânico. Se tiver potencial é sempre bem-vindo, mas o departamento dos vinhos envelhecidos... é coisa muito séria.
Dois alentejanos que me marcaram foram o Terras do Suão 84, lembrando marmelo, e o Paço dos Infantes, da mesma safra.
Já os mais novos que tomei foram um surpreendente Dão -o Quinta das Maias 94 e 95, lembrando um vinho de método "ripassa", com ricos aromas de frutas secas. E o branco Quinta da Foz do Arouce -que deveria constar das seleções dos importadores brasileiros- é uma loucura, o "Montrachet de Portugal".
Outro foi o Quinta do Confradeiro 88, do Douro, com notas de couro e tanicidade para os pacientes.
A coluna de hoje fugiu um pouco do normal, mas a moral (hollywoodiana) da historia é: hoje tivemos um especial da categoria Bom Bolso, mas com caráter de Extravaganza! Ora pois!