JUSTIÇA AOS PORTUGUESES
São Paulo, sexta, 30 de outubro de 1998

É triste assistir ao desprezo com que a imprensa especializada trata os tintos e alguns brancos dos nossos patrícios portugueses (à exceção dos ingleses, sempre atentos ao que é bom e não vigente).
Este ano tive a felicidade de visitar Portugal duas vezes e degustar relíquias do tinto alentejano, como o Mouchão das safras 63 e 69.
Esses vinhos estavam num "padrão França de qualidade", ou seja, desespero e tristeza quando chega a última gota. Além de boas garrafas também envelhecidas do Ribatejo, Dão, Douro e Bairrada.
A modernização trouxe um fato extremamente desagradável: a introdução das uvas onipresentes Cabernet Sauvignon e Chardonnay, que só me impressionam mesmo quando estão, respectivamente, em Bordeaux e Borgonha.
Um dos melhores vinhos que tomei recentemente foi o lendário Pera Manca, que está no grupo dos mais cobiçados, como Mouchão e Barca Velha, por sua qualidade e pequena produção. Lembrou muito os Cote Rôtie "crus", pela impressionante concentração de fruta -apesar de a uva não ser a Syrah e sim a Trincadeira Preta. Aroma de framboesa intenso e, na boca, quente e ligeiramente picante, por isso lembrando o Rhône. Os alentejanos são meus favoritos em Portugal -pena que por aqui ainda não cheguem o Terras do Suão, o Tapada de Chaves e o Mouchão, que estão entre os melhores que já tomei. São vinhos que, mesmo na juventude, podem ser desfrutados sem fazer caretas para os taninos. Outro ótimo exemplo da região é o Quinta do Carmo, de propriedade dos Rothschild.
Felizmente os bordaleses adicionaram sua técnica a favor das castas locais Alicante Bouchet, Trincadeira, Periquita e Aragonês (um dos melhores custo-benefício do mercado, tem gosto e aroma de vinho de mais de R$ 60, só que custa bem menos).
O Esporão, que se tornou popular em todos os mercados do país, apesar de ser ligeiramente descaracterizado pela tal influência da Cabernet, é um grande vinho com aromas de goiaba, groselha e não muito tânico na boca.