BARBERAS DE CAIR O QUEIXO
São Paulo, Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 1999

Se você também ama ossobuco, rabada, carnes com molhos impenetráveis e com sotaque italiano... Uma garrafa de Barbera aberta em cima da mesa uma hora antes da polenta ficar pronta é um ato de felicidade gastronômica!
Quando digo Barbera penso principalmente no movimento que surgiu paralelamente aos "supertoscanos" no início dos anos 80, os Barberas moderninhos envelhecidos em carvalho novo na sua região de plenitude, o Piemonte, norte da Itália.
O desbravador desse movimento foi Giacomo Bologna e sua tradução da uva -o Bricco Dell'Uccellone, que em diversas degustações fez bonito diante dos grandes vinhos da Europa.
Provei o de 94, que, apesar de não ter sido uma safra excepcional, estava um absurdo, com aromas de goiaba, palha, marmelo e boca longa.
Um fator nobre é que Giacomo esnoba a denominação DOC, intitulando sua jóia de Vino da Tavola.
Em seguida, outro nome vital em Barberas é Luigi Coppo e o canhão Pomorosso. No ano passado tive o prazer de participar de uma degustação com a presença de um dos Coppo, na qual um dos destaques foi o aromático 95, que trazia ameixas, figos e uma boca não muito tânica, apesar da idade.
Outro produtor de destaque é o Vietti, que, fora produzir ótimos Barolos, faz o sublime Scarrone. O que me impulsionou a escrever sobre Barbera foi esse vinho -degustei o de 95 e estava com uma concentração de aromas e sabores que felizmente não custa o que geralmente um vinho dessa qualidade custaria no mercado.
Detalhe importante: as garrafas de Vietti são obras de arte, e a do Scarrone tem a mesma atmosfera da capa do disco "Katy Lied", do grupo de pop jazz Steely Dan. Cool!
Um produtor de Barbera incensado tanto pelo Veronelli como pelo Gambero Rosso é Franco Martinetti e seus Barberas Montruc e Sul Bric. O primeiro é um Barbera D'Asti produzido com as técnicas modernas, e o de 95 veio com uma boca "picante" ligeiramente tânica, mas amiga dos guisados ricos. No nariz, passas secas e ameixas com uma nota de fungui seco.
O Sul Bric de 95 (50% Barbera, 50% Cabernet Sauvignon) ganhou as concorridas "tre bicchieri" do guia Gambero Rosso do ano passado. Um vinho que está delicioso agora, mas quem tiver paciência (que não é o meu caso) terá um gigante na adega. Tabaco, alcaçuz, amoras e cassis formam o aroma profundo desse vinho, que vai adorar se for aberto uma hora antes.
O único vinho que provei da safra 96, vista pelos guias como superior, foi o Mariagioana de Giacosa Fratelli, um nome também importante na nova escola de Barberas. Estava mais sutil e delicado e com uma fruta mais doce, uma tonalidade rubi tão intensa e luminosa que parece ter uma lâmpada dentro, aroma caramelado de framboesas e boca longa, equilibrada, fazendo boa escolta para pratos de ave.
Os Barberas ficam melhores se apreciados nas taças de modelo Borgonha, de preferência as da boquinha torta.