BEBIDA
Córsega, Provence, Jura e Borgonha.
Vive la différence!


Vinhos da França: diferentes e acessíveis
Esta semana a coluna da Boa Vida acompanha uma degustação com Ed Motta. A rodada foi em uma loja do centro de São Paulo, Le Tire-Bouchon, responsável pela importação de rótulos franceses de regiões vinícolas menos famosas, como Córsega e Provence.

O proprietário, Jean Raquin, entende do riscado. Nascido em Lyon, viveu mais de 40 anos na Provence - ainda mantém uma casa por lá - , região próxima da ilha da Córsega, onde pratica alpinismo. Ali são engarrafados rosés, brancos e tintos marcados pela tipicidade e pela qualidade. Outro ponto positivo: é um Velho Mundo mais acessível ao bolso. E que vale a pena conhecer.

Variedade é uma das grandes riquezas do mundo do vinho, e as novidades que Jean Raquin está apresentando aos consumidores brasileiros chamou a atenção de Ed Motta, que resolveu conhecê-las. Como observou Hugh Johnson em recente entrevista à VEJA.com: "Vinho é um assunto inesgotável."

Os tintos: o Givry foi meu preferido
Compartilhar uma degustação com Ed Motta é como ler sua coluna. Ed é o próprio manual prático da boa vida. Seus comentários e referências são parte de sua experiência com os prazeres da bebida e da comida. As idéias e imagens vão fluindo naturalmente.

Um Côtes du Jurá, um vinho branco típico de uma região da França quase desconhecida aqui, é classificado como uma espécie de "John Coltrane - vai por cima de todo mundo". Um borgonha Givry provoca uma associação imediata: "A nota animal vai bem com o cordeiro" E uma sacada: "O nariz sempre já diz qual a harmonização". Um outro tinto lembra sua iniciação no mundo do vinho, não por acaso em Paris. E por aí vai, vinhos lembram passagens de sua vida que remetem a outros vinhos, a músicas, histórias divertidas num ciclo virtuoso da boa vida.

Foram provados três brancos, dois rosés, três tintos e um doce, que foram acompanhados por um cardápio especial, preparado para harmonizar com a bebida. Ed Motta, acreditem, recusou um prato de quiche e a sobremesa: "Estou de dieta, não posso ir muito rock'n roll". Abaixo, uma seleção daqueles rótulos que mais se destacaram:

Les Vignerons d'Aghione Casanova blanc - Domaine Casanova.
Branco mais basicão, um Vin de Pays. A uva principal é típica da Córsega, a vermentinu, e tem um pouquinho de chardonnay. Polivalente, mandou bem com a salada com queijo de cabra, e acompanhou um peixe Saint-Pier, que tinha um toque de limão. Fica mais doce com o tempo. Tem em versão bag in box de 3 litros. Pra quem quiser uma tacinha por dia...
Côtes du Jura Savagin 2002
Um branco especial do Jura, um abacaxizão em compota. Tem esta nota oxidada que eu gosto muito. Lembra um jerez. Aroma de madeira velha - aromas barrocos, traduz meu amigo e sommelier Benedito Filho. Um vinho tipo música do John Coltrane: vai por cima de todo mundo.

Domaine Leccia rouge 2003 - AOC Patrimonio
Outro da Córsega com uma uva típica de lá, a niellucciu e um pouco de grenache. Tem um salgadinho que sempre me agrada muito, tem potência, tipicidade. Vinho para abrir e decantar.
Clos Salomon Givry Premier Cru rouge 2004
AOC Givry
Meu preferido. Borgonha é minha paixão e, mesmo jovem, mostra um tostado delicado, um pouco herbáceo. Morangos defumados no nariz. Uma nota animal facilitou a harmonização com o cordeiro. Na minha opinião, o melhor Givry importado no Brasil.
Mas de Cadenet Vin Cuit de Provence
Para fechar a festa, um vin cuit. Novidade. Nunca tinha provado. É isso mesmo, o vinho é literalmente cozido em fogo de lenha de carvalho por um dia, antes de ser engarrafado. O defumado da fumaça explode no nariz, também um festival de nozes. É um vinho doce diferentão. Acompanhou bem um queijo azul.