RESTAURANTE
Comida da fazenda em Santa Teresa

Fotos Edna Lopes e Ed Motta

Aprazível: culinária brasileira e natureza exuberante
O Rio de Janeiro continua lindo, exuberante visualmente. Fiquei quase um ano afastado da cidade e tenho vivido uma reaproximação amorosa com os cantos mais charmosos da cidade. Gastronomia, bem estar, charme, essa simbiose é perfeita no restaurante Aprazível, situado no bairro que transborda a atmosfera carioca mais verdadeira: Santa Teresa.

Fui ao Aprazível somente uma vez em 1996-97 por dica de meu amigo e gourmet Marcello Dantas. A idéia era degustar o marreco assado até hoje no cardápio. Apesar de adorar comer bem, não gosto muito de sair de casa, então tento equacionar as neuroses. O fato de não dirigir também dificulta - não a chegada mas o retorno de táxi ou carona. Tem hora que estou sem paciência para esse trammit.

10 anos depois, por convite do chapa Jonathan Nossiter, que faz a carta de vinhos mais interessante do país no Aprazível, participo de uma tarde muito especial, que eu gostaria de repetir semanalmente.

Fala-se muito da verdadeira identidade da culinária brasileira, que paira entre o tradicional resguardado pelos botequins e restaurantes de bairro com muito filé a oswaldo aranha, língua com purê de batata, escondidinho, etc. No viés moderno da cozinha brasileira o mestre Alex Atala, em São Paulo, dá um show de qualidade. O mundo inteiro com razão reconhece isso. Mas o Aprazível é nosso assunto agora. A chef e proprietária Ana Miranda coloca a comida da fazenda num contexto de cuidado, esmero. Ana é mineira, e para mim os mineiros fazem a melhor comida típica brasileira. Minas é a França gastronômica do país.

Pupunha assado: no ponto Pão de queijo com lingüiça: perfeito
Começamos com algumas porções de palmito pupunha assado, num ponto maravilhoso e escoltado pelo espumante do Vallontano que impressionou a todos na mesa.

Entrada: tabule de abóbora e quinua
A chef preparou uma entrada deliciosa que não está no cardápio, um tabule de abóbora e quinua. Nesse momento, eu tive o prazer de degustar mais uma vez a obra-prima de Alvaro Escher, o vinho Cave Ouvidor branco, Peverella 2005. Perfeito! Inclusive deixou acuado o Quartz, grande vinho branco de Claude Courtois, no mesmo estilo natural do Cave Ouvidor produzido no Vale do Loire, na França. Sem dúvida não é só o melhor vinho branco do Brasil, mas da América Latina que tem feito vinhos assim como Hollywood faz o cinema volátil de hoje. Na seqüência, o must da tarde, um pão de queijo inacreditável, perfeito, uma jóia. Vem com uma lingüiça dentro, e o namoro com o Peverella foi perfeito. Ao lado do pão de queijo feito no Varanda Grill em São Paulo, são os melhores que já comi. Nesse padrão, vira obra de arte! De principal pedi uma galinhada, que tem pegada de comida caseira, da mamãe, uma delícia. Volto a ser criança e tenho saudade do Capitão Asa, na TV Tupi.

Com a galinhada mais uma descoberta de Nossiter que me arrebatou completamente, o cabernet sauvignon do enólogo gaúcho Werner Schumacher da Quinta Ribeiro De Mattos 2005, ainda sem rótulo. Lembra os velhos Bordeaux, antes da "modernização", com notas de caça e madeira molhada. Preciso fazer uma nova degustação de vinhos brasileiros de pequenos produtores, eles são um sopro de ânimo pela dignidade em qualquer área profissional.

Um elemento que eu nunca levo em conta num restaurante é o visual, mas no Aprazível a vista e o clima são presentes dos deuses.

Descoberta de Nossiter: o cabernet Quinta Ribeiro De Mattos 2005, do enólogo gaúcho Werner Schumacher. Arrebatador!
De dia, a visão de Santa Teresa e do centro do Rio emoldurada pela natureza exuberante faz o coração bater mais rápido, e dá vontade de beber vinho bom, até começar a ficar inconveniente, suando... De noite, as luzes da cidade, principalmente o relógio da Central do Brasil, parecem coisa de cinema.

E mais, a carta tem ênfase nos pequenos produtores brasileiros comentados aqui na Veja on-line. O Aprazível é a embaixada desses vinhos. Do Velho Mundo escolhas inteligentes como o Touraine branco Clos De Teut Beuf do Vale do Loire, na França. O Rio de Janeiro continua lindo!