DEGUSTAÇÃO
Vinhos para serem ouvidos

Marcelo Barbarani

Tintos e brancos da Leroy: jóias de pureza
"Meus vinhos precisam ser ouvidos e não degustados." Assim começou o discurso de uma das figuras mais importantes da história do vinho, Madame Lalou Bize-Leroy numa degustação organizada pela importadora Grand Vin no Hotel Grand Hyatt nesta semana em São Paulo.

Os vinhos da Leroy são jóias de pureza, com alma de artista de vanguarda. O que me surpreendeu ainda mais foi a personalidade de Lalou Bize-Leroy, que tem atitude e pensamento progressista, muitas vezes mal interpretada pelo público formalista e "janotinha" do vinho.

Lalou Bize-Leroy: alma de artista
Sem dúvida nenhuma foi a degustação mais prazerosa e inteligente que eu já participei. Inteligência é artigo raro em qualquer meio. Ela não chegou com slides fotográficos fazendo explicações técnicas sobre o solo, e depois tratando o vinho como um remédio chato, o que acontece na maioria das degustações dogmáticas. Isso sem falar quando, de quebra, o produtor do vinho não vem alicerçando seus produtos com "Robert Parker deu tantos pontos, Wine (Disney) Spectator deu outros tantos", e por aí vai. Sobre o assunto "pontuação de vinho" pretendo escrever em breve, essa tabuada me irrita muito.

Leroy não comentava sobre cada vinho, naquele clima sala de aula com alguns poucos alunos fazendo perguntas pseudopertinentes. Não tem aula, não tem mandamento, pontuação, bula, que maravilha!!!

Foram doze vinhos degustados, alguns são vinhos de négociant, ou seja, ela compra as uvas e vinifica em sua propriedade. Isso na Borgonha é usual, não são todos os négociant que têm a excelência de Leroy ou do meu amigo de corpo fortinho, Dominique Laurent, um dos tops négociant da região.

A degustação começou com tintos e terminou com os brancos. Eu adoro fazer isso, até porque tenho gostado mais dos brancos (da Borgonha, é claro).

Divulgação

Ed Motta e Leroy: um dia que valeu por um século
Meus vinhos favoritos foram :

Pommard "Les Vignots" 97 e 87
O 97 é produzido sob os preceitos do biodinamismo e de vinhedos próprios e, diferente do 87, um vinho de négociant. O 97 é explosivo, muita azeitona, flores, o 87 envelheceu muito bem, tem a madeira mais presente. O 97 foi um dos melhores Pommard que já bebi até hoje. Leroy disse que gosta de beber esse vinho com um belo prato de lebre, onde se come lebre no Brasil?

Corton Renardes 97 e 67
Um Grand Cru da região de Corton, um tinto na área dos brancos da Borgonha, a Cote de Beaune.
Dessa vez o vinho de négociant de 1967 foi a estrela, o vinho que mais gostei de toda degustação. Trufas pretas ! Eu e Mestre Jedi Manoel Beato que estava sentado ao meu lado na honrosa mesa de Lalou Bize-Leroy, falamos em coro. Um dos melhores vinhos que já bebi !

Gevrey Chambertin "Les Combottes" 97 e "Les Cazetiers" 57
Um dos solos sagrados do planeta, mais uma vez uma experiência inesquecível provar um Borgonha de 1957. Eu só tinha bebido uma vez um Richebourg 57 DRC num jantar há alguns anos no Rio com presença do grande músico Sergio Mendes.
No 57 vem figo verde, algo herbáceo de juventude impressionante, um vinho que vai durar muito. O 97 é um canhão de frutas pode ser guardado por uma década pelo menos.

Corton Charlemagne 2003 e Bourgonhe AOC 97
Dois brancos da mesma uva (chardonnay) um é Grand Cru topo de linha e outro um bourgonha simples AOC. Muita corajem dela colocar um vinho que pode praticamente comprar uma caixa do outro, e os dois feitos por ela.

Chassagne Montrachet "Morgeot" 97
Eu sou fanático por Chassagne Montrachet, geralmente mais untuosos e encorpados do que os sutis Puligny Montrachet. No nariz aquela festa de manteiga sem ser vinho da Disney, uma nota de arroz branco. Olha que coisa mais linda mais cheia de graça...

Montrachet "La Richard": Jesus!
Puligny Montrachet "La Richard" Domaine D´Auvenay 2004
Eu tinha perturbado minha amiga Ana Maria da Gran Vin pedindo para ela trazer esse vinho que bebi ano passado em alguns lugares da Europa. Principalmente na melhor deli do planeta o Peck, em Milão, onde entro para beber Leroy com um prato de nervetti no café da manhã, uma coisinha muito leve feita da cartilagem do boi.

No nariz aquele posto de gasolina sensacional, com manteiga de pipoca. Jesus Christ, a Borgonha é muito melhor do que tudo que eu conheço no mundo do vinho. Troco um Borgonha médio por um grande vinho de qualquer parte do planeta. E nesse caso não é médio, é um canhão de frutas sem piedade.

Leroy seguiu na mesa citando os surrealistas Man Ray, Salvador Dali, o papo ali não é mercado, notas do Robert Parker (ahhg), esse universo cartesiano do vinho. Por sinal, é raro encontrar um amante da Borgonha que compactue com esses dogmas.

Tem dias que valem por um século e esse foi um deles, eu agradeço a Deus por estar vivo quando acontece algo desse nível.

LINKS
• www.domaineleroy.com