BEBIDAS
Bonny Doon: um vinho diferente da terra do Tio Sam

O visionário Randall Grahm e seu vinho mais famoso, Le Cigare Volant, uma homenagem aos vinhos de Châteauneuf-du-Pape
Eu não sou um grande entusiasta dos incensados vinhos do Novo Mundo, acho muito artificiais, fruta doce demais, madeira que um cupim adoraria se embebedar, mas ainda bem que exceções existem e um bom exemplo são os vinhos da vinícola Bonny Doon, na Califórnia.

O proprietário Randall Grahm que reside na cidade hippie de Santa Cruz é uma voz dissonante no meio da mesmice da maioria dos vinhos do Tio Sam. Em meados de 80 Randall foi visionário ao desenvolver vinhos com uvas "cult" do Rhône (roussane, cinsault, viognier), da Itália (nebbiolo, freisa, malvasia) saindo da monomania de tentar imitar (mal) os tintos de Bordeaux e brancos da Borgonha.

Muscat: feito com uvas congeladas no pé que foram afetadas pelo fungo botrytis cinerea
Randall é adepto da vinicultura biodinâmica, e pouca intervenção no processo de vinificação, tanto que afirma que o vinho não é produzido e sim "encaminhado". Esse discurso teoricamente tradicionalista em relação às grandes vinícolas "modernas" com equipamentos e maneirismos para uma suposta melhoria do vinho anda ao lado da militância de Randall Grahm pelo uso do "screwcap" no lugar da tradicional rolha de cortiça. Ele defende que os vinhos envelhecem melhor com "screwcap" e que o contato com oxigênio que a rolha permite apressa o amadurecimento. Só o tempo dirá...

Provei alguns dos vinhos Bonny Doon disponíveis no Brasil, importados pela Mistral que tem o bom gosto do ultra-expert Ciro Lilla nas escolhas.

O que me levou a escrever sobre Bonny Doon foi o seu vinho mais famoso, Le Cigare Volant 2002, uma homenagem, e não cópia, dos vinhos de Châteauneuf-du-Pape tintos, com as uvas syrah e mourvèdre predominando. Esse vinho me surpreendeu muito numa degustação só com "canhões" franceses do Rhône e da Borgonha. Muito equilibrado, fruta deliciosa no nariz e boca, ideal para pratos importantes de carne, esse tinto tem potencial para guarda mas já está ótimo para beber.

O Zinfandel Cardinal Zin 2003 de vinhas velhas escoltou com bravura uma rabada com batatas (e uma pimentinha dedo de moça ao lado). A maioria dos vinhos recusa a pimenta, mas nesse caso foi amor à primeira vista.

Um vinho diferente dos syrah superencorpados, quase geléia do Novo Mundo, é o Syrah Le Pousseur 2003, com notas florais e delicadas para uma vitela malpassada ou um risotto. A uva syrah depois da pinot noir é minha favorita para vinhos tintos. Mas os favoritos que degustei foram o Le Cigare Blanc 2004 e o Muscat Vin de Glacière 2004.

O primeiro é mais uma vez uma alusão aos Châteauneuf-du-Pape, nesse caso os brancos, um blend de 75% da uva roussane com 27% da grenache blanc. Aromas explosivos de frutas tropicais e um fim de boca que numa degustação às cegas juraria que era um vinho branco do Rhône, e dos bons. A gama de combinações com comida é grande, de um carpaccio de peixe até queijos de pasta mole.

O Muscat é feito com a técnica muito comum na Alemanha, Áustria e Canadá nos Icewine, usando uvas congeladas nas parreiras e que foram afetadas pelo fungo botrytis cinerea. Muito aromático, laranjas em compota e boca infinita, perfeito para queijos fortes ou sobremesas claras e frutadas sem chocolate.

Um detalhe muito importante nos vinhos de Bonny Doon são seus rótulos sempre criativos, desenhados por grandes quadrinistas e designers. As garrafas são dignas de coleção e o site da vinícola deve ser o mais "cabeça incrível" do mundo dos vinhos, onde na maioria das vezes o mau gosto visual impera.

Os rótulos criativos, desenhados por grandes quadrinistas e designers: dignos de coleção

SAIBA MAIS
• https://www.bonnydoonvineyard.com/
• http://www.deathofthecork.com/