COMIDA E BEBIDA
Prato natureba & vinhos biodinâmicos

Feijoada vegetariana do VSC: sem bronca com o prato
Apesar de ser um glutão, adorador de delícias proibitivas, o mundo gastronomicamente saudável me interessa muito. No Rio de Janeiro sou cliente assíduo do Vegetariano Social Clube (VSC), no Leblon, e o Vegan Vegan, em Botafogo.

Muitos falam que a essência da comida carioca está nos botequins, mas a "Bossa-Nova" da coisa são os vegetarianos, que podem atender desde a "cocota" que não quer aparecer com uns quilinhos a mais na praia, até os conectados com os benefícios dessa alimentação.

O VSC tem um menu cuidadoso, com leituras vegetarianas para pratos famosos, como o strogonoff de palmito e shimeji e o bobó de shitake. Para o inspiradíssimo tempêh à portuguesa, enrolado numa alga nori, podemos usar a expressão neo-espanhola dos chefs da moda, "um bacalhau virtual", ultracabeçaincrível! Eu não sou um fanático por sobremesas, mas não deixe de experimentar o manjar de coco e a torta de maracujá com tofu.

O Vegan Vegan também apresenta grande excelência nesse assunto e assim como o VSC oferece um menu de almoço a preço sempre honesto, aliás essa transparência ao cobrar uma conta é um reflexo das buscas por melhorias pessoais e entre elas está em não enganar os outros... Se me perguntar qual o quibe que eu mais gosto, não é de carne e sim de tofu e trigo apenas, uma iguaria simples e perfeita do Vegan-Vegan.

Tanto o Vegan-Vegan como VSC fazem duas vezes por semana uma feijoda vegetariana deliciosa. Eu fiquei com fama de não gostar de feijoada por conta do meu mau humor mutante, quando usei a feijoada no enredo de uma declaração bombástica esse ano, mas a insatisfação era com o todo e peguei um símbolo para sinalizar o problema com mais ênfase, but it’s only rock and roll!

Coulée de Serrant: nível coisa muito séria. Inacreditável!
E vinhos? As maiores surpresas na minha taça em 2006 foram vinhos naturais, biodinâmicos, a maioria sem adição de conservantes e sem filtragem, principalmente os do Vale do Loire, na França.

Meu amigo e guru de vinhos, Jacques Treffois, tinha me apresentado no ano passado o Château Yvonne, um saumur blanc de chorar: natural, turvo, visual parecendo cerveja de trigo, ainda sem importação por aqui. Mas a boa notícia é que alguns dos melhores exemplos no mundo dos vinhos naturais estão chegando no Brasil.

Fala-se tanto em custo-benefício, mas na maioria das vezes o lema é "se contente em beber um vinho horrível mas por preço baixo". Quando o dólar foi a 4, eu migrei para a cerveja, porque pelo preço dos tais custos-benefícios eu bebia o crème de la crème da cerveja. Nesse quesito os vinhos do Clos Du Tue-Boeuf dos irmãos Puzelat são imbatíveis, o Tourraine 2004 simples é um vinho importante, delicioso por 45 reais, preço de muita zurrapa, o "especial" deles, o Le Buisson Poilleux então nem se fala, mais caro, é claro, a uva sauvignon blanc aqui aparece completamente diferente, menos acidez, mais corpo eu nunca diria que era sauvignon blanc. O tinto Cheverny Friulese 2004 um blend de pinot noir com a injustamente mal-afamada gamay é explosivo no nariz e também de bom preço.

Outro produtor, Claude Courtois, tem espírito dos grandes artistas nos seus vinhos de pouca quantidade disponível; no Brasil, chega o Quartz, um sauvignon blanc na mesma idéia do Clos Du Tue-Boeuf, mas com fruta um pouco mais nobre.

Mas a estrela do assunto me foi apresentada há duas semanas, a jóia Coulée de Serrant o "Montrachet da uva chenin blanc" no Vale do Loire, em Savennières, de propriedade de Nicolas Joly que é o bam-bam-bam da cultura biodinâmica.

Degustei o da safra 2004, que foi decantado um dia antes à tarde na loja da Casa do Porto em Belo Horizonte pelo meu xará Eduardo. Algo inacreditável ! Está entre meus vinhos favoritos top hoje, nível coisa muito séria mesmo.

E a personalidade de Nicolas Joly é rara nesse mundo cada vez mais sem rosto nem gosto. Joly assina a seguinte frase na na página inicial de seu site: "I don’t want only a good wine but also a true wine".

O mundo ainda não acabou...